O Centro Cultural Missionário - CCM conta hoje com três
Departamentos: O Centro de Formação Intercultural – CENFI;
O Serviço de Colaboração Apostólica Internacional – SCAI;
O Centro de Animação e Estudos Missionários – CAEM.
Esses três Departamentos fazem parte da visão de conjunto,
formulada desde o início por alguns dos protagonistas, que deram
origem ao CCM. A implantação desses departamentos surgiu,
porém, em momentos históricos, relativamente não
sincronizados, de acordo com a oportunidade ditada por necessidades
pastorais. Esse aspecto fica em parte ressaltado, quando se analisa
o perfil de seus principais protagonistas : Mons. Ivan Illich; Frei
João Batista Vogel, O.F.M.; Dom Helder Câmara, Pe. Tiago
Cloin, CSSR; Dom Eugênio Sales.
Para que se possa apreciar devidamente o empreendimento audacioso,
que representou a criação do Centro Cultural Missionário – CCM,
no Brasil, torna-se necessário atentar para:
- O contexto nacional, que serviu de matriz às
suas origens;
- Os principais protagonistas,
que o conceberam e implantaram;
-
As
perspectivas, que para ele se abrem, no limiar do século
XXI, a partir de um maior entrosamento e complementaridade com relação
ao Instituto Nacional de Pastoral e ao Centro de Estudos Religiosos
e Investigação Social.
Numa retrospectiva da Igreja no Brasil ao longo deste século,
não seria exagerado considerar a década de 1950 e a primeira
metade dos anos 60 como uma verdadeira primavera de renovação
espiritual, pastoral e teológica, que teve o seu ponto culminante
no Concílio Vaticano II.
Contemplando aos olhos da fé esse período de aproximadamente
quinze anos, é-se levado a compará-lo ao clima de otimismo,
carregado de esperança, que os evangelhos sinópticos,
mas sobretudo João, deixam transparecer com empolgação
e simplicidade, no tocante à expectativa messiânica, que
tomara conta das camadas piedosas e simples do povo eleito, e que havia
se polarizado em torno da pessoa de João Batista, e do surgimento
de Jesus de Nazaré.
No Brasil, a espiritualidade de Charles de Foucauld, bem como
o desvelo da Igreja pelos marginais - até mesmo por aqueles que a sociedade
considerava como a escória irrecuperável da delinqüência
humana, acolhidos e reeducados pela obra do Abbé Pierre, fundador
dos trapeiros de Emaüs - despertaram a consciência da hierarquia
e dos fiéis para o ideal de uma Igreja servidora e pobre. É preciso
não esquecer que em algumas regiões da Europa, devastadas
pela guerra e em pleno esforço de recuperação
e reconstrução, este ideal começava também
a ser trabalhado em numerosos grupos de renovação espiritual,
pastoral e teológica.
O aprofundamento das fontes bíblicas e patrísticas consolidavam
uma salutar renovação da cristologia, da antropologia
cristã, e da eclesiologia, tanto no que diz respeito à vida
interna da Igreja, como também às suas relações
para com a sociedade e a história humana,. Este desenvolvimento
teológico deu embasamento à renovação pastoral
no Brasil, embora não tivesse tido maior impacto na teologia
ensinada nos seminários. A renovação pastoral
e espiritual buscou também subsídios nos estudos bíblicos,
não tanto na exegese, protagonizada pela Liga de Estudos Bíblicos,
que nunca chegou a sensibilizar a gente simples do povo, mas sobretudo
na teologia bíblica, que tinha melhores condições
de alimentar naquele momento os esforços de renovação.
O cenário nacional, com raras exceções, era também
dominado por um intenso clima de otimismo e criatividade. A bandeira
de um desenvolvimento de cunho nacionalista, que Getúlio pregara
pelo país em sua campanha eleitoral, e que procurou implantar,
uma vez instalado pelo voto popular no Palácio do Catete em
1950, galvanizou a intelectualidade nacional e mobilizou as classes
trabalhadoras dos centros urbanos e industriais. Apesar do impacto
negativo do suicídio de Vargas, Juscelino Kubitschek logrou
arregimentar as massas populares e segmentos importantes das classes
dirigentes, em torno de seu projeto nacional, consubstanciado no plano
de metas, bem como em torno de seu arrojado projeto da construção
de Brasília, como novo marco de interiorização
do desenvolvimento nacional, e na sua proposta de uma operação
pan-americana.
No domínio da cultura e das artes surgiam o cinema novo, a bossa
nova, e os gênios de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Na
literatura Guimarães Rosa e Paulo Cabral de Melo introduziam
novos conceitos estéticos e lançavam luzes mais esclarecedoras
sobre o Brasil dos excluídos: o homem do sertão com seu
linguajar e cultura própria, e este mesmo sertanejo transplantado
para a Zona da Mata, no seu enfrentamento com o regime do cambão,
que dominava a agroindústria da cana de açúcar.
No teatro surgia o auto da compadecida de Ariano Suassuna.
O desenvolvimento do Brasil passava a ser sistematicamente
estudado e formulado em duas instituições, ideologicamente antitéticas,
ambas localizadas na cidade do Rio de Janeiro : A Escola Superior de
Guerra, no bairro da Urca, e o Instituto Superior de Estudos Brasileiros,
em Botafogo. A mobilização dos meios estudantis, onde
se debatiam acaloradamente os grandes desafios enfrentados pelo país,
canalizava o élan da juventude para os grandes ideais do desenvolvimento
nacional, e proporcionava--lhe mística e foco. O Movimento de
Educação de Base, patrocinado pela Igreja, e o Movimento
de Cultura Popular, apoiado pela União Nacional de Estudantes
e pelas Esquerdas, entregavam-se a um ambicioso programa de educação
popular, levando à participação sindical e política
as camadas da população, excluídas até então
do processo consciente de construção nacional.
No âmbito da Igreja a década de 50 encerrava-se com duas
iniciativas de considerável envergadura: a decisão obtida
pela ação direta do Núncio Apostólico Armando
Lombardi de se promover uma estreita colaboração entre
a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e a Conferência
dos Religiosos do Brasil em matéria de ação pastoral;
o estabelecimento de uma amplo programa de diálogo e cooperação
entre a Igreja no Brasil (ampliada logo em seguida a toda a Igreja
latino-americana) e as Igrejas da América do Norte e da Europa.
No caso da América do Norte esse programa teve início
imediato; no caso da Europa, que não dispunha de um Conselho
Episcopal a nível de continente, o programa veio a consolidar-se
no contexto e por ocasião do Concílio Vaticano II.
No Brasil esta última proposta de cooperação partia
de uma tomada de consciência de três situações
distintas da Igreja, existentes nos países dominados pela cultura
ocidental : o caso brasileiro e latino-americano, o caso europeu e
o caso norte-americano. Acreditava-se que o diálogo e a cooperação
entre Igrejas, que viviam nos seus respectivos continentes problemática
distintas, com valores, mas também com limitações,
peculiares, poderia ser extremamente enriquecedor. A convivência
dessas Igrejas em Roma, durante o período conciliar iria confirmar
essa intuição da segunda metade da década de 50.
No caso brasileiro, e mesmo latino-americano, reconhecia-se
na religiosidade popular um cabedal inestimável de vivência de fé,
embora recoberta às vezes pela ganga de práticas puramente
devocionistas, quando não sincretistas, e saudava-se o surgimento
de núcleos expressivos de renovação eclesial,
localizados sobre tudo na Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, na Ação Católica Brasileira, nos movimentos
de renovação catequética e litúrgica, em
esforços notáveis, embora isolados, de renovação
em paróquias e dioceses, e em algumas instituições
de educação católica, bem como em alguns empreendimentos
destinados a marcar a presença da Igreja no processo de desenvolvimento
do país e promoção das classes menos favorecidas.
Era uma Igreja em que os grupos renovadores viviam um grande otimismo,
de velas enfunadas ao sopro do Espírito, apesar de incorrerem, às
vezes, na tentação de um certo triunfalismo. Seu maior
desafio consistia em transformar a religiosidade popular em uma fé mais
adulta, alimentada pela Palavra de Deus, pela comunhão eclesial,
pelo testemunho e pelo serviço engajado, bem como encontrar
e construir estruturas pastorais flexíveis e adaptadas ao contexto
histórico, vivido pelo país.
Na Europa tinha-se a impressão de uma Igreja que, apegada a
privilégios medievais, relutara por muito tempo em aceitar o
mundo moderno, e assumir o que ele tinha de positivo, para preencher
suas lacunas e reorientar suas distorções. Essa sua relutância
criara por isso não apenas uma ruptura intra-eclesial com a
reforma protestante do século XVI, mas também cavara
um fosso de separação com a sociedade civil em suas vertentes
política, econômica, social e cultural. Seu desafio principal
era a segunda evangelização, conforme o diagnóstico
já proferido na segunda metade do século XIX pelo cardeal
britânico e oxfordiano John Newman. Mas ao longo do século
XX empreendera uma notável renovação teológica
e espiritual. Faltavam-lhe, porém, carismas suficientes, que
a ajudassem a transformar essas duas renovações em termos
de um serviço pastoral adequado ao novo contexto, em que ela
vivia no século XX.
No continente norte-americano, particularmente nos Estados
Unidos (Canadá constituía
uma situação peculiar, em que a Igreja de cultura francesa
enfrentava desafios similares aos do continente europeu e do continente
latino – americano ao mesmo tempo), encontrava-se uma Igreja,
que vivera por séculos na condição de uma minoria
cercada por Igrejas oriundas da reforma protestante, com uma proliferação
exuberante das seitas. O quadro político de um regime de governo,
que se afirmava como visceralmente descomprometido com valores de natureza
confessional, levara esta Igreja a montar seu próprio sistema
educacional e a estruturar-se solidamente em termos institucionais
e financeiros. Essa Igreja, porém, confrontava-se com dois formidáveis
desafios: Como viver o ideal de uma Igreja servidora e pobre na sociedade
de maior afluência material do planeta ? Como tomar consciência,
que esta afluência tinha uma trágica contrapartida, pois,
era assegurada pela exploração, que sua classe dirigente
exercia sobre quase dois terços do resto da população
mundial ?
Nesta caracterização das três situações
de Igreja, vale a pena ressaltar a capacidade, que a Igreja do Brasil
demonstrou em operacionalizar e traduzir em ação pastoral
a inestimável síntese teológica e pastoral formulada
e promulgada pelo Concílio Vaticano II. Não deixou de
ser percebido e registrado pelos meios de comunicação
social, que acompanharam os trabalhos conciliares, o fato de ter sido
o episcopado brasileiro o único, que, ao término do Vaticano
II, dispunha de um plano orgânico e detalhado, devidamente discutido
e aprovado, para levar o conteúdo dos documentos conciliares
a todo o povo de Deus, no momento em que o Brasil vivia uma das maiores
crises políticas de sua história.
O Concílio Vaticano II, porém, havia alargado ainda mais
os horizontes apontados na caracterização das três
situações de Igreja acima mencionadas, ao colocar face
a face bispos de todas as partes do mundo, que traziam o testemunho
de vastas regiões do planeta, onde se professava um ateísmo
militante, ou onde os cristãos constituíam minorias pouco
significativas face a confissões religiosas milenares, dotadas
de grandes valores culturais, ou onde o regime colonial europeu, que
prosperou ao longo do século dezenove e durante mais da metade
do século XX, deixara profundas feridas, frutos de uma dominação, à qual
os povos subjugados associavam inexoravelmente a Igreja, que também
viera do Ocidente desenvolvido nas mesmas naus, que haviam trazido
os conquistadores. Os documentos conciliares sobre a Missão
da Igreja; sobre os diálogo entre as religiões; sobre
o diálogo com aqueles, que não crêem em Deus; sobre
a liberdade religiosa foram frutos dessa experiência, levada
a Roma pelos Padres conciliares.
É
preciso levar em conta esse vasto contexto para apreciar devidamente
o alcance e o significado do Centro Cultural Missionário na
pastoral da Igreja no Brasil. Para entender ainda mais concretamente
suas origens relativamente humildes, e ao mesmo tempo a visão
ampla e idealista, que o animou nos seus primórdios, vale a
pena levar em conta alguns traços, que caracterizaram a personalidade
de seus principais protagonistas.