Ivan Illich nasceu no litoral do Mar Adriático, província
da Dalmácia (ex-Yugoslávia). Quando tinha cinco anos
sua família mudou-se para Roma, na Itália. Durante sua
infância e juventude conviveu com o círculo de nobres
russos, que haviam se refugiado na capital italiana, depois que foram
expulsos do seu país pela revolução comunista
de 1917. Ainda em Roma o jovem Illich entrou para o Seminário,
onde teve como colegas muitos dos futuros diplomatas dos Vaticano,
e ordenou-se sacerdote.
O Cardeal Spellman, arcebispo de Nova Iorque,
por ocasião de
suas viagens a Roma, teve a atenção voltada para esse
jovem eslavo, e resolveu levá-lo para os Estados Unidos, como
um de seus auxiliares imediatos. Fluente em dez línguas, Illich
passou a ser o intérprete do Cardeal, sempre que este recebia
missões de outros países, com as quais não podia
se comunicar diretamente em inglês. Desta maneira o jovem sacerdote,
nascido na Dalmácia, tornou-se de certa maneira confidente do
arcebispo em alguns assuntos específicos.
Spellman estava preocupado com um problema, que
se agravava progressivamente em sua arquidiocese: como assegurar
o serviço pastoral para
cerca de um milhão e duzentos mil hispano-americanos, especialmente
porto-riquenhos e mexicanos, que residiam em Nova Iorque. Para enfrentar
este desafio dispusera-se a trazer da Espanha sacerdotes e religiosas
espanholas, para cuidar da pastoral voltada para essa população
católica de cultura latina, cujo idioma materno era o castelhano.
Durante as negociações com os espanhóis, o Cardeal
solicitou a ajuda de Illich para servir de intérprete.
Ao cabo de uma importante reunião, em que Illich exercera o
papel de intérprete, Spellman solicitou, depois que os espanhóis
haviam se retirado, a opinião do seu jovem auxiliar sobre o
acordo, que estava prestas a fechar, visando importar sacerdotes e
religiosas da Espanha. A princípio Illich alegou que a sua função
era a de um mero intérprete, mas diante da insistência
do Cardeal resolveu ponderar em termos francos e diretos : "Vossa
Eminência tem em sua arquidiocese um problema realmente sério
: uma população de um milhão e duzentos mil hispano-americanos,
que não recebem a devida assistência pastoral. Ao trazer
os espanhóis para fazer face a este desafio , Vossa Eminência
está criando dois outros problemas igualmente sérios:
embora falem a língua, os espanhóis desconhecem a cultura
hispano-americana, bem como são estranhos à cultura norte-americana,
e particularmente à cultura nova-iorquina. Após refletir
sobre a argumentação de Illich, o Cardeal concordou com
suas ponderações e o encarregou de preparar sacerdotes
da arquidiocese, que, após uma imersão na língua
e cultura dos latino – americanos, pudessem assumir em Nova Iorque
o serviço pastoral junto a essa população.
Desenvolvido em bases profissionais, sobretudo no que diz respeito à aprendizagem
da língua, pouco a pouco Illich fez avançar o empreendimento,
que lhe confiara o Cardeal, com resultados significativos. Illich resolveu
então ampliar seu raio de ação, transferiu-se
para o México, e criou o Centro Intercultural de Formação – CIF
e o Centro de Informação e Documentação – CIDOC,
na cidade de Cuernavaca, distante aproximadamente uma hora de carro
da cidade do México, onde alugou, para abrigar os dois Centros,
uma Mansão, que havia sido residência de veraneio do antigo
Presidente Lázaro Cárdenas.
Em Cuernavaca Illich começou a desenvolver três programas,
que faziam parte de sua visão original: aculturar os americanos
(sacerdotes, religiosas, leigas e leigos), que se destinavam a realizar
um trabalho pastoral ou um serviço social na América
Latina; aprofundar com especialistas latino-americanos e norte-americanos
o processo de inculturação do evangelho na realidade
do continente, situado ao sul do Rio Grande; promover o diálogo
e a cooperação entre a Igreja, situada na América
do Norte e a Igreja, localizada na América Latina, em pé de
igualdade, superando qualquer relação de dependência
e paternalismo. Cuernavaca tornou-se uma espécie de plaque tournante
ou carrefour, que fazia circular ou avançar essas idéias.
Illich percebeu muito cedo a situação original do Brasil
dentro do continente latino - americano, e mesmo vislumbrou a importância
que o país estava destinado a assumir, apesar desta sua posição
peculiar dentro do mundo ibero-americano. Assim, além de Cuernavaca,
que servia toda a área hispano-americana, considerou relevante
estabelecer um centro no Brasil, para aglutinar e consolidar a contribuição
valiosa do universo luso-americano.
Dentro de uma convergência de interesses e pontos de vista, foi
estabelecido o contato com os Franciscanos de Anápolis, e Frei
João Batista Vogel, após um treinamento em Cuernavaca,
aceitou dar início no Brasil ao Cento de Formação
Intercultural – CENFI, que foi instalado na cidade de Petrópolis,
que representava, com relação ao Rio de Janeiro, uma
localização semelhante à de Cuernavaca com respeito à cidade
do México.
No caso do Brasil, Illich, com a perspicácia, que lhe era peculiar,
percebeu que a CNBB e a Ação Católica Brasileira
já levavam a cabo de alguma maneira dois dos seus programas
: o esforço de uma evangelização inculturada e
o diálogo entre Igrejas de diferentes continentes. No caso da
Ação Católica vale a pena salientar seu pioneirismo
no tocante a seu programa de cooperadores interdiocesanos, além
de seus permanentes nacionais e regionais. Por isso, dentro da estrutura
institucional do CENFI, cuidou, para que este fosse supervisionado
por um Conselho Curador, integrado por personalidades de destaque na
CNBB e na Ação Católica Brasileira. Ao mesmo tempo,
vinculou tanto o Centro de Cuernavaca, como o Centro de Petrópolis à Universidade
de Fordham, no Estado de Nova Iorque (EUA), conferindo assim a esses
centros um caráter igualmente acadêmico.
Mons. Ivan Illich faleceu em 02 de dezembro de 2002, na Universidade
de Bremen - ALEMANHA.
FREI
JOÃO BATISTA VOGEL
Frei João Batista representava o ponto de vista da Província
Franciscana de Goiânia, e era uma personalidade dotada de simplicidade
evangélica, e fervor missionário. A partir de 1961 deu
início às atividades do CENFI em Petrópolis, dentro
da perspectiva de formação dos cooperadores estrangeiros
de ambos os sexos - especialmente daqueles, que vinham trabalhar nos
quadros da Igreja no Brasil – em consonância com o modelo
de aculturação, seguido em Cuernavaca, tanto do ponto
de vista do aprendizado da língua, como também da imersão
na cultura brasileira em todas as suas dimensões.
Na convivência entre Mons. Illich e João Batista manifestaram-se
progressivamente alguns elementos fundamentais de divergência.
Embora uma pessoa aberta, frei João Batista dedicava-se inteiramente
ao trabalho de formação e não manifestava especial
entusiasmo pelos demais programas, que faziam parte da visão
de Illich, ao menos não os encarava nos moldes e na intensidade,
preconizados por este último. Em segundo lugar a abordagem de
Frei João Batista com respeito a toda a perspectiva missionária
era mais serena e diplomática, e distinguia-se nitidamente da
abordagem crítica, contundente e acalorada de Ivan Illich. Em
terceiro lugar o eslavo-americano defendia uma radicalidade evangélica
total no que diz respeito à posse de bens por parte de instituições
eclesiásticas, mesmo que as conseqüências dessa atitude
fugisse ao senso comum ordinário.
Este último aspecto levou a um rompimento da parceria entre
esses dois protagonistas por volta do ano de 1966. Tanto o Centro de
Cuernavaca como o de Petrópolis funcionavam em instalações
físicas alugadas. Em Petrópolis, o CENFI tinha como sede
um hotel, que havia encerrado suas atividades. Houve a possibilidade
da compra deste hotel por um preço e sob condições
relativamente favoráveis. Illich não concordou com a
compra. Frei João Batista pressionou pela aquisição
do imóvel, com o objetivo de dar maior estabilidade ao CENFI.
A controvérsia foi parar no Conselho (Board) da Universidade
de Fordham, que acompanhava os Centros, fundados por Illich. O Conselho
decidiu pela posição de permanecer pagando o aluguel
e de não se engajar na aquisição de propriedade.
Diante dessa situação, Frei João Batista deixou
a direção do CENFI. Illich escolheu para substitui-lo
um sacerdote canadense, que havia trabalhado por vários anos
no Brasil : Mons. Cambronne. Ao assumir a direção do
Centro, esse sacerdote canadense já trazia um propósito
bem definido : sua permanência nesse posto seria temporária,
pois julgava que a direção do CENFI devia estar em mãos
de um brasileiro. Sua estratégia era conseguir que um sacerdote
nativo começasse a trabalhar com ele como uma espécie
de diretor adjunto, a fim de adquirir experiência necessária,
até que tivesse em condições de exercer plenamente
as funções de diretor. Após um exercício
não muito demorado para a escolha de um candidato, a seleção
fixou-se no Pe. Celso Pedro da arquidiocese de São Paulo. Em
uma viagem à Capital paulista duas visitas concluíram
o assunto: uma ao próprio candidato, que aceitou o convite sob
determinadas condições; e a outra ao Cardeal Agnelo Rossi,
então Presidente da CNBB, que anuiu à solicitação
de Mons. Cambronne, e concordou em ceder este sacerdote de sua arquidiocese
para trabalhar no CENFI em Petrópolis.