“Sereis minhas testemunhas”: formação Ad Gentes termina com missionários preparados para atravessar fronteiras

Após duas semanas de formação, convivência e espiritualidade no Centro Cultural Missionário, participantes seguem para destinos no Brasil e no exterior levando consigo mais que conteúdos: a experiência de compreender que missão não é apenas algo que se faz, mas uma forma de estar no mundo.

Há fronteiras que se atravessam com uma passagem nas mãos. Outras, exigem disponibilidade para deixar para trás certezas, costumes e referências. Para quem escolhe a missão, atravessar fronteiras significa também aprender a encontrar Deus em outros rostos, culturas, idiomas e modos de viver.

Foi com esse horizonte que, no dia 22 de agosto, chegou ao fim a “Formação Ad Gentes: iniciação à missão além-fronteiras”, realizada no Centro Cultural Missionário (CCM), em Brasília (DF). Durante duas semanas, missionários e missionárias de diferentes vocações e trajetórias compartilharam estudos, oração, convivência e experiências que os prepararam para os caminhos que agora começam a percorrer.

Promovida pelo CCM, órgão filial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com a Comissão Episcopal para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial da CNBB, as Pontifícias Obras Missionárias (POM) e a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), a formação teve início no dia 10 de agosto e foi concluída com avaliação, celebração eucarística de envio e almoço.

Inspirado pela passagem dos Atos dos Apóstolos – “Sereis minhas testemunhas” (At 1,8), o curso parte de uma compreensão integral da missão. Mais do que preparar alguém para chegar a um novo território, busca formar mulheres e homens capazes de chegar ao outro com abertura, escuta, respeito e disposição para servir.

Ao longo da formação intensiva, os participantes aprofundaram dimensões antropológicas, bíblico-teológicas, humano-afetivas, pedagógicas e sociais da missão, além de temas como Missão Ad Gentes e Inter Gentes, mobilidade humana, Amazônia, Programa Missionário Nacional e os projetos Igrejas Irmãs e Igrejas Solidárias.

A formação, porém, não aconteceu apenas dentro da sala de aula. A proposta do CCM convida os participantes a experimentarem, na própria rotina, valores que estarão presentes na vida missionária: despojamento, serviço, acolhida, espiritualidade, cuidado, convivência comunitária e abertura às diferenças. Entre estudos, celebrações, trabalhos em grupo, visitas e partilhas, cada experiência passou a compor um processo de discernimento sobre o sentido de partir e, sobretudo, sobre o modo de chegar.

Da formação ao envio

Para a leiga Taissa Crispim, que será enviada para Larde, em Moçambique, a experiência ampliou sua compreensão não apenas sobre a Missão Ad Gentes, mas sobre a própria presença da Igreja no mundo.

“A experiência tem sido maravilhosa porque não estou só aprendendo o que é a Missão Ad Gentes, mas entendendo a forma como a Igreja se posiciona e atua em todas as áreas.”

A fala de Taissa revela uma das marcas da formação: compreender que a missão não se limita a uma atividade específica. Ela atravessa relações, escolhas, contextos sociais e culturais e exige do missionário a capacidade de perceber a realidade antes de agir sobre ela.

Taissa Crispim será enviada para missão em Larde, Moçambique

Essa compreensão também marcou a experiência do Pe. Rodrigo Rios, que seguirá para a Inglaterra, onde integrará a pastoral voltada aos brasileiros que vivem no exterior. Para ele, as duas semanas permitiram enxergar com mais profundidade a complexidade de ser missionário em outros contextos e países.

“Fazer esse curso foi essencial para entender essa complexidade e poder dar o meu melhor dentro do trabalho missionário. Aprendi muito mais do que fazer missão: aprendi como ser missão.”

Pe. Rodrigo Rios será enviado para missão na Inglaterra, onde integrará a pastoral dos brasileiros no exterior.

Entre o fazer e o ser, talvez esteja uma das travessias mais importantes propostas pelo curso. Antes de qualquer projeto ou atividade pastoral, existe uma pessoa chamada a encontrar outra pessoa. É nesse encontro, muitas vezes atravessado por diferenças culturais, sociais e linguísticas, que a missão ganha rosto.

Uma experiência que provoca e transforma

Para a Ir. Marlete Francisca da Silva, que será enviada para Chambéry, na França, a formação ganhou contornos de verdadeira imersão.

“Minha experiência está sendo muito provocadora. Mais do que um curso, estou vivendo uma imersão missionária através das partilhas, dos conteúdos e das interações em grupo.”

Ela destaca ainda a diversidade de dimensões trabalhadas durante o percurso formativo: afetiva, antropológica, sociológica, pedagógica e bíblica, e recomenda a experiência a missionários e missionárias que desejam aprofundar sua vocação.

Ir. Marlete Francisca da Silva será enviada para missão em Chambéry, França.

A interdisciplinaridade é parte essencial da proposta da Formação Ad Gentes. Afinal, partir para a missão significa encontrar realidades complexas, nas quais fé, cultura, relações humanas, questões sociais, migração, pobreza, meio ambiente e diferentes tradições se entrelaçam. Preparar-se para essa realidade requer mais do que respostas prontas: exige capacidade de escuta, discernimento e diálogo.

Também para o diácono Victor Machado, as duas semanas no CCM possibilitaram experimentar a missão para além dos conceitos. Ele será enviado para Canelones, no Uruguai.

“Durante essas duas semanas no CCM tivemos a oportunidade de experimentar a dimensão da missão, entendendo tudo aquilo que ela implica, conhecendo realidades lindas, percebendo como o mundo chama cada um de nós e sentindo o Evangelho no coração.”

Diácono Victor Machado será enviado para missão em Canelones, Uruguai.

É justamente entre conhecimento e experiência que o curso constrói seu percurso. As aulas oferecem fundamentos; a convivência coloca esses fundamentos diante da vida concreta. As partilhas aproximam histórias. A oração devolve cada experiência à sua origem: o chamado.

Para o leigo Pedro Francisco da Silva, que seguirá para Nampula, em Moçambique, a profundidade da formação e a qualidade dos assessores contribuíram para uma reflexão que ultrapassou o campo acadêmico.

“A experiência foi muito interessante porque o curso possui uma grande profundidade e assessores de boa qualidade, o que nos faz refletir sobre o valor da missionariedade. Está sendo, de um lado, formativo e, de outro, muito existencial por conta da troca.”

Pedro Francisco da Silva será enviado para missão em Nampula, Moçambique.

E é nessa troca que diferentes destinos se encontram antes da partida. Moçambique, Inglaterra, França e Uruguai parecem distantes entre si no mapa, mas estiveram, durante duas semanas, reunidos em uma mesma casa, ao redor de uma mesma mesa e de uma mesma pergunta: o que significa ser missão onde a vida nos envia?

Quando o curso termina, a missão começa

O encerramento, no dia 22, não representou simplesmente o fim de uma programação. A celebração eucarística de envio marcou a passagem da formação para uma nova etapa. Depois das aulas, debates, oficinas, trabalhos em grupo, momentos de oração e convivência, aquilo que foi estudado no CCM começa agora a encontrar novos sotaques, paisagens e realidades.

Cada participante parte levando sua própria história e encontrando outras tantas pelo caminho. Alguns atravessarão oceanos; outros, fronteiras culturais e sociais dentro do próprio território. Todos carregam o mesmo desafio: testemunhar o Evangelho a partir da proximidade, da fraternidade e do encontro.

A Formação Ad Gentes termina, assim, como toda verdadeira experiência missionária deveria terminar: não com um ponto-final, mas com um envio.

Porque a missão começa muito antes de chegar a um novo lugar. Começa quando alguém aceita sair de si para encontrar o outro.

E, agora, eles partem.

Gabriela Arruda – CCM

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